Rolli, o filme finlandês
Ontem eu resolvi assistir ao filme Rolli - Na terra dos elfos, em cartaz no Santander Cultural. É um filme finlandês, e essa é a única razão que me motivou a assisti-lo. Ao chegar lá descobri que ganhou três prêmios de cinema infantil, o que já é alguma coisa. De um ponto de vista não-infantil, é um filme ruim, irritante, com um roteiro fraco, mas interessante pela experiência sociológica. Contudo, tendo em mente o público-alvo da produção, crianças entre 4 e 10 anos - ou algo parecido, sei lá -, é um filme bem interessante, não é uma maravilha, mas é divertido e serve como um bom entretenimento para a piazada. Um destaque deve ser feito para um dos momentos mais bizarros que eu já vi: o chefe da tribo dos trolls vai para um lugar de repouso para morrer, senta-se, seu corpo é sugado para dentro da roupa(tudo bem, ele é um ser mágico, essa passa), e de dentro da roupa sai... um PERU BRANCO! Isso mesmo, o chefe da tribo transforma-se em um grande e gordo peru branco! Momentos bizarros à parte, é impossível não compará-lo com (argh!!!) Xuxa e os Duendes, versões 1 e 2. Em ambos temos músicas e danças ao redor de fogueiras, personagens caricatos, figurinos extravagantes, gente dizendo que elfos e trolls (ou quaisquer outros povos) podem conviver em paz, etc. A grande diferença está nos resultados de um filme que procura contar a história sem empulhações. O filme finlandês faz uso mínimo de efeitos especiais, o que não prejudica o clima de magia em nenhum momento e mantem o orçamento muito abaixo do que seria necessário para um mundo forrado de pixels. E, o mais importante: evita os (d)efeitos especiais constrangedores que podem ser vistos nos filmes (sic) da rainha dos baixinhos (sic!!!). Os efeitos são usados apenas quando definitivamente indispensáveis, e são bem simples, sua ausência não comprometendo a história. Por outro lado, os efeitos de Xuxa e os Duendes são de uma tosquice assutadora! Estão presentes as atuações caricatas, os figurinos exagerados, o enredo simples. As atuações são forçadas, mas não podemos exigir um Jeremy Irons, um Ian McKellen ou um Ben Kingsley em filmes destinados a crianças. Não em filmes com orçamentos tão baixos e com esse público-alvo, ainda incapaz de compreender histórias mais complexas e atuações mais sutis. Já o enredo não tem complicação: os trolls chegam na floresta, os elfos se escondem e depois tentam viver em paz e são expulsos pelos trolls, Rolli (troll) e Millie (elfa) toram-se amigos, descobrem que a floresta será coberta pela escuridão caso os dois povos não convivam em paz, e depois de contratempos e disputas todos acabam compartilhando a floresta. Os cenários e a fotografia. Bom, nada de árvores e rochas de espuma, isopor e papelão em Rolli. Os cenários finlandeses são uma floresta, uma praia e uma clareira verdadeiras, com árvores reais, rios reais, casas de madeira reais, acampamentos reais, pontes de madeira reais, muita madeira real, enfim, nada de enganações. Agora eu tenho um questionamento: como pode haver um desperdício tão grande?! As paisagens finlandesas não têm uma vírgula da exuberância das brasileiras, porém as tomadas são muito bonitas. A paisagem é explorada de modo a aproveitar o potencial das florestas finlandesas e das mudanças do clima, movimento de nuvens, sol, penumbra. Em contrapartida, em Xuxa e os duendes o que vemos são, excluídas as cenas próximas dos personagens, árvores bisonhas pintadas com tinta guache e os bosques ordinários do estúdio da Globo. Bom, quanto às músicas, enquanto aqui aturamos os apadrinhados de sempre cantando musiquinhas melosas, lá ao menos podemos escutar músicas mais próximas do bom e velho rock’n’roll. Considero a grande diferença entre eles essa: Rolli - Na terra dos elfos assume as próprias limitações orçamentárias e dedica-se a roteiro, locações e figurino, abrindo mão de efeitos especias em grande quantidade, e fizeram isso muito bem, ao passo que o pessoal da Sra. Meneghel estava mais preocupado em fazer um filme inteiro (roteiro, produção, filmagem, edição, distribuição) em três meses com o único objetivo de aproveitar o filão criado pel'O Senhor dos Anéis - e atrasar a estréia deste no país inteiro!
P.S.: escrevi esse post há quase uma semana no laboratório da faculdade, mas não publiquei porque só lembrava disso nos momentos mais inoportunos (como no meio da rua a caminho da faculdade). Enfim, não modifiquei nada, apenas quero ressaltar que tanto o filme finlandês quanto os da Xuxa são ruins, contudo a ruindade desses possui diferentes graus, e os cenários e a fotografia de Rolli - Na terra dos elfos são muito bonitos mesmo. Assim, se quiserem levar seus filhos, primos, sobrinhos, ou qualquer criança que seja, prefiram sem titubear Rolli e fujam, fujam com todas as suas forças de seus corações dos filmes da Xuxa.
Escrito por Zen às 01h39
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